Entrevista para O Brasilianista. Leia a íntegra
A Anthropic, uma das principais empresas que desenvolve inteligência artificial (IA), começou a pedir para que seus principais laboratórios pausem as produções da tecnologia coordenadamente. Isso porque considera que seus agentes, muito em breve, poderiam se aprimorar sem qualquer intervenção humana e a sociedade não estaria preparada para controlar os efeitos.
O alerta reacende uma discussão central sobre o futuro do mercado de trabalho: a IA não chega apenas para a automação de tarefas repetitivas, mas agora a possibilidade é de que o sistema assuma funções cognitivas, analíticas e até criativas, antes consideradas exclusivamente humanas.
O nível está — “finalmente” — próximo àqueles citados em filmes de ficção científica em que as máquinas são mais inteligentes do que seres humanos. E o mercado de trabalho, nos moldes em que está estruturado hoje, não está pronto para esse cenário.
O mercado ainda opera com modelos de formação, contratação e desenvolvimento baseados em profissões relativamente estáveis. A IA, por outro lado, acelera mudanças em uma velocidade muito superior à capacidade tradicional de adaptação das empresas, das escolas e dos trabalhadores.
“Futuristas brasileiras, como Rosa Alegria e Lala Deheinzelin, já apontam que o futuro do trabalho exigirá menos apego a cargos fixos e mais capacidade de aprendizagem contínua, criatividade, colaboração, propósito e adaptação. Ou seja, o desafio não é apenas tecnológico: é humano, educacional e social”, diz Soraia Pena, psicóloga organizacional e consultora em desenvolvimento Humano & Saúde Mental Corporativa.
Os setores mais afetados pela dominação da IA
O mais provável não é o desaparecimento total do trabalho, mas uma grande reconfiguração das ocupações. Muitas funções administrativas, analíticas, operacionais e de produção de conteúdo tendem a ser reduzidas ou transformadas.
“O maior risco está na desigualdade: quem tiver acesso à educação, tecnologia e requalificação poderá se reposicionar; quem não tiver, poderá ficar mais vulnerável à exclusão profissional. Nesse cenário, o desemprego tecnológico pode vir acompanhado de ansiedade, perda de identidade profissional e insegurança sobre o futuro”, explica Pena.
Nos próximos cinco anos, a tendência é que a IA transforme fortemente áreas como atendimento, marketing, jurídico, financeiro, recursos humanos, tecnologia e serviços administrativos.
Uma substituição ampla da maioria dos trabalhos humanos, porém, depende de fatores além da tecnologia: regulação, custo, cultura organizacional, confiança social e capacidade das empresas de implementar esses sistemas. Por isso, um cenário mais massivo pode levar de dez a vinte anos, mas a preparação precisa começar agora na visão da especialista.
“O ponto central não é tentar impedir a IA, mas construir uma transição responsável. O futuro do trabalho será menos sobre competir com máquinas e mais sobre desenvolver aquilo que a tecnologia não substitui com facilidade: pensamento crítico, ética, empatia, criatividade, liderança e capacidade de cuidar das relações humanas”, reitera a psicóloga corporativa.
Os desafios de regulamentação
Se a inteligência artificial realmente alcançasse um nível capaz de executar a maioria dos trabalhos hoje realizados por seres humanos, o cenário seria de grande risco para o mercado de trabalho, com potencial para gerar níveis elevados de desemprego e profundas transformações econômicas e sociais.
A maior preocupação hoje é que a IA generativa não atinge apenas tarefas repetitivas ou industriais. Ela alcança atividades intelectuais, administrativas, jurídicas, financeiras, publicitárias, jornalísticas, tecnológicas e de atendimento. Isso muda a natureza do risco, porque pressiona justamente empregos de classe média, funções de entrada e carreiras antes consideradas protegidas pela qualificação formal.
Mesmo com agentes de IA capazes de se atualizarem sozinhos, ou seja, sem intervenção humana, a substituição ampla da maioria das profissões ainda depende de desafios tecnológicos e regulatórios relevantes.
O desafio jurídico, econômico e social é impedir que uma tecnologia capaz de gerar riqueza em escala inédita produza, ao mesmo tempo, desemprego em massa, concentração de renda e exclusão profissional. Governos estão ativamente discutindo essa matéria, com regulamentações que impedem uma substituição total da maioria dos trabalhos, o que poderia gerar uma crise inegável às economias mundiais.
Quem paga a conta da dominação da IA?
O impacto da inteligência artificial na economia tende a ser significativo. Em escala global, a expectativa é de aumento da produtividade, redução de custos operacionais e aceleração da inovação.
Por outro lado, a tecnologia também traz desafios importantes, especialmente relacionados à substituição de determinadas funções, à necessidade de requalificação profissional e ao risco de concentração de renda e de mercado nas empresas que detêm as tecnologias mais avançadas.
“Assim, o impacto econômico tende a ser positivo no longo prazo, mas os benefícios dependerão da capacidade de governos, empresas e trabalhadores de se adaptarem às mudanças trazidas pela tecnologia”, comenta Anthony Braga, advogado da área trabalhista do Lassori Advogados.
O ponto central é que crescimento econômico não significa, automaticamente, distribuição de renda. A IA pode aumentar o PIB e, ao mesmo tempo, reduzir postos de trabalho, precarizar funções intermediárias e concentrar ganhos nas empresas que detêm tecnologia, dados e infraestrutura computacional.
No Brasil, o impacto pode ser duplo. Ao mesmo tempo em que a IA pode aumentar produtividade em serviços, bancos, indústria, agronegócio, setor público, logística e saúde, o país tem alta informalidade, desigualdade educacional e dificuldade histórica de requalificação em larga escala. Isso torna a transição mais sensível.